sábado, 4 de outubro de 2008

#068 - Bons Exemplos VII

Catadores reunidos em São Leopoldo

Cerca de 1050 catadores de lixo latino-americanos estiveram reunidos no II Congresso Latino Americano de Materiais Recicláveis, realizado entre os dias 23 e 25 de janeiro, em São Leopoldo, RS. O tema foi: “Não há fronteiras para os que exploram. Não deverá haver para os que lutam”.

“O principal ganho foi moral, pois, na rua, ficamos expostos às drogas e à violência e, quando estamos organizados, não”, diz Alexandro Cardoso, que, desde seus 18 anos, encontrou na atividade de catador de materiais recicláveis uma solução para o desemprego. Depois que começou a trabalhar com o MNCR, Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, a vida de Cardoso melhorou muito. “Agora tenho cartão de banco, cheque, comprovante de renda e até fundo de mini-projetos”. Antes de ingressar no Movimento, Cardoso trabalhava nas ruas de Porto Alegre catando lixo reciclável por cerca de 12 a 14 horas por dia, com um ganho mensal de R$200,00. Hoje, aos 25 anos, trabalha 7 horas por dia e ganha R$400,00. O catador lembra que, com a profissão, o ganho não é só econômico e social, mas também ambiental: “a campanha de rua tem seu foco principal no meio ambiente, pois todos os materiais que poluem o meio são recicláveis".

Hoje Cardoso não é apenas catador, mas faz parte do quadro de militantes do Movimento e considera que iniciativas como o II Congresso “são formas de capacitar-se e de ter mais acesso a informações e subsídios que necessitamos para lutar no dia-a-dia da militância” diz o jovem, que arrisca até a fazer uma análise da política internacional: “os Estados Unidos não têm fronteiras para sua exploração e nós também não teremos para lutar”, explica, referindo-se ao tema do Congresso. A história de Suzano Pereira Alves também é um exemplo de que um trabalhador organizado pode melhorar suas condições de vida. Catador há 27 anos, pai de 7 filhos e no Movimento desde 2002, Alves trabalha no lixão do Distrito Federal, em Brasília, separando materiais recicláveis para uma das quatro áreas que sua base orgânica possui. “Apesar do dia-a-dia ser duro, me sinto feliz, pois trabalho quando quero e só Deus manda em mim. Emprego não tem e, quando tem, o patrão não dá valor ao empregado. Então resolvi trabalhar com lixo, pois eu mesmo sou meu patrão”, avalia. Depois de ingressar no Movimento, Alves elevou sua renda de maneira relevante.


Dois milhões em todo o país

No Brasil há cerca de dois milhões de catadores de lixo reciclável, segundo estimativa feita pelo MNCR. Desses, apenas 60 mil fazem parte de movimentos que organizam o trabalho e a luta pelos direitos dos catadores. “Construir grupos em bases orgânicas de acordo com os princípios e objetivos da classe é uma das vantagens que o trabalhador alcança ao se organizar”, acredita Alexandre Camboim, da Coordenação Nacional do MNCR.

De acordo com ele “o movimento é a base e a mobilização leva a um conjunto de conquistas”. Afirma, ainda, que, com “estruturas e ferramentas de trabalho, o catador consegue melhorias nas condições de vida”. Para o militante, esta melhoria só é possível depois que o catador “rompe com o atravessador e acessa diretamente a indústria” (de reciclagem) com a qual vai negociar, por meio de contratos, melhores condições de venda dos materiais recicláveis. Essas conquistas não são apenas econômicas, explica Camboim, mas também de “fortalecimento da dignidade humana em relação à sociedade”.


Troca de experiências

De acordo com Roseli Rodrigues Souza, da Coordenação Sul São Paulo do MNCR, trocar experiências, fortalecer a solidariedade, a articulação de luta por políticas publicas, “que garantam os direitos e a legalização dos catadores, além de capacitar e formar o trabalhador”, foram os principais objetivos do II Congresso, que teve seminários que discutiram temas como: “Organização dos Catadores no Continente Sul Americano; Protocolo de Kyoto; Alca e o impacto na Vida dos Catadores; Políticas Nacionais de Resíduos Sólidos”, entre outras atividades culturais.

Os avanços das discussões foram muitos, explica a coordenadora do movimento: “conseguimos juntar e organizar os grupos nas vendas, na separação e principalmente na relação entre os seres humanos, o que é muito importante”, orgulha-se. Ela lembra que, esse tipo de evento, é a base para dar “consciência de classe, formação e capacitação para o catador que sai pelas ruas com seu carrinho, catando e conscientizando a sociedade da importância da reciclagem e da coleta seletiva”, explica.


Delegações latino-americanas

O II Congresso Latino Americano de Catadores reuniu cerca de 1050 pessoas e contou com a participação de delegações de países como Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, México e Peru, além de grupos da Tanzânia, Moçambique e Cuba. Para Exequiel Estay, representante da delegação do Chile, “o primeiro objetivo do Movimento é lutar para que as autoridades reconheçam os catadores como pessoas e trabalhadores e não como mendigos. Por isso exigimos respeito”. Estay é coordenador de um grupo de 35 catadores, que reúnem, separam e vendem os materiais recicláveis na cidade de La Serena, que fica a 600 quilômetros ao Norte de Santiago do Chile.

Após discussões, debates e trocas de experiências, o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) fechou o encontro com um documento, chamado de “Carta Final”, que afirma: “O movimento saiu fortalecido, pois aprofundou a solidariedade entre as organizações de catadores da América Latina. Assim, poderemos lutar juntos por uma sociedade em que todas as pessoas vivam com dignidade, em que o trabalho coletivo construa uma economia solidária, que sirva de alternativa à economia capitalista, baseada na exploração dos trabalhadores e do meio ambiente”.





* Matéria e foto de Francisco Rojas publicada no site do TAPS (Temas Atuais na Promoção da Saúde)

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